RESIDÊNCIAS ARTÍSTICAS

Artistas provenientes de outros países encontraram-se em Guimarães com um mesmo objetivo: criar novas linguagens a partir da “matéria prima” existente na região. Como não podia deixar de ser, duas empresas têxteis abriram entusiasticamente as suas portas para receber novas visões do têxtil. O Bordado de Guimarães é alvo também de uma abordagem mais contemporânea. O resultado do trabalho realizado é apresentado ao público através das exposições In Factory e Bordado de Guimarães, na Casa da Memória, de 1 de Setembro a 14 de Outubro.

IN FACTORY_ Esta residência artística, realizou-se em Julho de 2012 e teve como intenção aproximar e integrar a indústria Têxtil no evento CONTEXTILE 2012, bem como revelar ao público uma nova face do têxtil da região de Guimarães “entrelaçado” com a arte contemporânea. A artista lituana Ernesta Dikinytè, designer têxtil, desenvolveu o projeto na empresa PEREIRA DA CUNHA S.A.. A artista espanhola Francesca Piñol, antropóloga e com formação em design têxtil,realizou o projeto na empresa SAMPEDRO. 

Ernesta Dikinytè Lituânia

n. 1987, Kaunas, Lituânia. Licenciatura em Têxtil, Academia de Artes de Vilnius, Faculdade de Arte de Kaunas, Lituânia. Vive, trabalha e estuda em Kaunas, Lituânia.

“Invisible people” 50 almofadas 45cmx45cm, algodão, tear jacquard

A responsabilidade de um artista não é apenas criar a ideia ou desenvolver o design, mas também executar a obra de arte, algo que depende em grande medida da experimentação e da descoberta de coisas novas. A minha expetativa ao vir para Guimarães era aprender mais sobre a tecnologia de tecelagem jacquard, e criar uma peça com interesse para a comunidade local, sobretudo para os trabalhadores da empresa Pereira da Cunha. Queria que eles participassem no meu trabalho, e optei por tecer os retratos de todos os colaboradores. A melhor forma de definir uma pessoa é mostrar o seu retrato. Os retratos aparecem nos passaportes, no dinheiro, e são muito pessoais. Os retratos em relevo eram muito usados nas moedas antigas; os baixo-relevos eram criados para celebrizar ou imortalizar personalidades. Normalmente, o cliente final não sabe nada sobre aqueles que estão por detrás de todo o trabalho têxtil. Quando cheguei à empresa fiquei surpreendida com a qualidade, a inovação, a tecnologia e o design do trabalho. Estas características dependem em grande medida destas pessoas “invisíveis”. Os retratos são criados com recurso a sombreamento e a relevo para fazer as faces emergir do tecido e ganhar vida. Eu utilizo a mesma urdidura e os mesmos fios que são usados na empresa, os mesmos tecidos com que os colaboradores trabalham, mas numa perspetiva completamente nova. Da mesma forma que um pixel é muito importante para a tecelagem, cada trabalhador é muito importante para a empresa. Entrevista

Francesca Piñol Espanha 

n.1959, Lleida (Segrià), Espanha. Doutoramento e Mestrado, Faculdade de Belas Artes, Barcelona. Licenciatura Geografia e História (Antropologia Cultural), Universidade de Barcelona. Vive e trabalha em Barcelona, Espanha.

“Blau”, 580 x 310 cm, algodão e linho, tear jacquard

“Cercle”, 580 x 310 cm, algodão e linho, tear jacquard

Sempre tive fascínio pela estrutura intrínseca do tecido: urdidura e trama, pois elas entrelaçam-se para formar uma rede. Também acho o som do movimento dos teares muito interessante. Todos os teares, desde os manuais até aos mais tecnológicos, fazem um barulho peculiar e constante que é muito típico das fábricas têxteis. Tentei fazer uma imersão na fábrica, nas suas origens, na sua estrutura e nos tecidos que produz. Inspirei-me nas origens da fábrica e nos motivos da sua criação; nos padrões, nas texturas, nos tecidos e nos teares que produzem os tecidos. Também me inspirei nos materiais utilizados, especialmente no linho, com o qual decidi trabalhar. Assim, para realizar o meu projeto, tomei como ponto de partida as estruturas têxteis, o som dos teares de tecelagem, o linho e o simbolismo da roca de fiar. A minha obra existe para ser contemplada, convidando-nos a caminhar ao seu lado e a seguir um itinerário que vai da urdidura à trama, acompanhados pelo som do tear enquanto tece, um itinerário reflexivo sobre algo que nos acompanha, que nos envolve e que toca a nossa pele.  Sentir as estruturas entrelaçadas do tecido, sentir a sua envolvência e a sua companhia ao longo do nosso percurso pessoal. Entrevista

 

BORDADO DE GUIMARÃES_ Para dar a conhecer e sublimar as novas linguagens e aplicações do Bordados de Guimarães, a CONTEXTILE 2012 acolheu uma artista plástica convidada: Monika Järg (Estónia), designer têxtil, que desenvolve o seu projeto em parceria com uma (s) artesã (s) de A Oficina. O Bordado de Guimarães, em particular, é o retrato de um legado valioso de técnicas com especificidade local, cujas artesãs têm vindo, ao longo dos anos, a ser desafiadas para abrir as portas à irreverência da criação contemporânea, com efeitos surpreendentes. Novas dinâmicas e perspetivas artísticas são adicionadas ao Bordado de Guimarães. (Residência a decorrer até final de Agosto)

Monika Järg Estónia

n.1975, Talline, Estónia. Licenciatura (BA) e Mestrado (MA), Academia de Artes da Estónia, Talline, Estónia. Vive e trabalha em Talline, Estónia.

“Home, Sweet Home”, madeira de pinho, algodão, fio de seda, bordado à mão, 200x200cm 

Ao criar a ideia para o meu período de residência em Guimarães, o meu ponto de partida foi adquirir mais conhecimentos, pois eu não sabia quase nada sobre os têxteis e os bordados portugueses. Para mim, os bordados portugueses são algo muito íntimo, voluptuoso e positivo; algo que requer tempo e atenção. E implica uma ação que é difícil de conjugar com o ritmo do estilo de vida atual. As decorações dos bordados parecem sempre encapsular muitos significados diferentes – tradições, sabedoria transmitida de geração em geração, histórias, fragilidade e vitalidade e, sobretudo, a abordagem e o brilho pessoais do mestre. O último ponto foi o mais inspirador para mim – esperava descobrir nos bordados aqueles significados ocultos, o sentido de cada pequeno pormenor, para sentir a sedução desta ação. O meu objetivo era contar a minha própria história através desses pormenores. Utilizei a madeira e o processo de ampliação. A madeira é algo verdadeiramente nórdico – é o material do qual dependíamos, é forte e macia ao mesmo tempo, guardando a mensagem no seu interior. Eu comparo a ampliação ao espaço disponível no norte. Uma vastidão de espaços vazios onde é a natureza quem dita as regras. Quando é noite, é noite, quando é dia, é mesmo dia. A ampliação é o mecanismo para tornar as situações, as coisas e os processos evidentes e claros. Tal como nas minhas obras anteriores, conjuguei os materiais têxteis com a madeira e bordei-os. O resultado é um quarto-instalação com os objetos de um quarto de dormir – pormenores íntimos com uma história ampliada, inspirada nos bordados tradicionais e nos seus mestres. Entrevista

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